Giuseppe Lira | Diretor de Arte

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Complexo. É assim que o mundo é. Resenha do livro Design para um Mundo Complexo (Rafael Cardoso)

Rafael Cardoso (1964, Rio de Janeiro) é escritor e historiador de arte, PhD em História da Arte pelo Courtauld Institute of Art (Universidade de Londres) e com uma interessante produção voltada para o campo do design gráfico. Escreveu O DESIGN BRASILEIRO ANTES DO DESIGN (Cosac Naify, 2005), UMA INTRODUÇÃO À HISTÓRIA DO DESIGN (Blucher, 2008), DESIGN PARA UM MUNDO COMPLEXO (Cosac Naify, 2012), dentre outros.

Ao iniciarmos a leitura do livro DESIGN PARA UM MUNDO COMPLEXO (Cosac Naify, 2012, 264 págs.) percebemos que o autor abordará os dogmas cristalizados do design modernista, que teve seu surgimento a partir da década de 20 com o início da Escola Bauhaus, e desenvolveu-se nos meandros das décadas subsequentes. O lema “A forma segue a função” e a própria noção de funcionalidade é posta à prova, já que o autor pincela, de maneira rápida, que o contexto atual é bem diferente dos idos anos 1960. Portanto, torna-se arriscado projetar para o mundo real sem levar em conta sua complexidade.

É importante perceber que Rafael Cardoso não se debruçou muito nas mudanças históricas e sociais do mundo para, a partir daí, expor suas ideias. Sua análise parte muito mais de uma reflexão semiótica e filosófica do que de conjecturas advindas de uma profundo mergulho na formação da economia capitalista e de tudo que a cerca, inclusive o design.

No texto introdutório do livro é possível entender porque o título deste se chama Do “mundo real” ao mundo complexo. O “mundo real” a que o autor se refere é o mesmo que o designer americano Victor Papanek tratou, em 1971, em seu livro Design for the Real World, cujo tema abordava a substituição da “função social” pela “funcionalidade”. A esta altura, o leitor já pode ter uma ideia mais clara em relação ao que Rafael Cardoso se propõe abordar neste bonito livro laranja, que conta com belas ilustrações de Francisco França.

Com o tempo, tudo que é sólido se desmancha no ar. Inclui-se neste pressuposto o significado das coisas. Para Rafael Cardoso, os significados dos artefatos não são tão imutáveis quanto um dia se pensou. O significado se constrói e muda de acordo com alguns fatores condicionantes. São fatores ligados à condição material, como o uso, entorno e duração e fatores ligados à percepção, como: ponto de vista, discurso e experiência.

O leitor descobrirá que os Arcos da Lapa, o NewBettle da Volkswagen, o célebre cartaz “Change” da primeira campanha presidencial de Obama e a embalagem do pó Royal têm mais em comum do que se pensa. Além de exemplos criativos e reveladores dos quais o autor lança mão, são também todos considerados artefatos permeados de discursos circundantes e não possuem significados estáveis e imutáveis. Pareceu complexo? É assim que o mundo é.

Se o leitor estiver esperando respostas para algumas questões que podem surgir no decorrer da leitura, é preciso informar que, infelizmente, não as terá. O livro é muito mais um provocador de questionamentos do que um manual de sobrevivência para esse mundo complexo descrito por Rafael. Talvez, devido à sua natureza semiótica, a análise carece, para um leitor mais apressado, de objetividade prática. Embora se compreenda que o autor quisesse suscitar tais provocações.

Quem for da geração X ou Y, achará demasiado extensa a forma que o autor achou para abordar a grandiosidade, a complexidade e a rapidez de processamento, que são inerentes à Word Wide Web. Recorre-se a um diálogo simulado com alguém que não viveu e, portanto, não presenciou o surgimento da era digital como fenômeno de massa. Esse personagem é Taylor Coleridge. O resultado disso é que, apesar de interessante, o artifício fez por entender acerca de algo simples que é uma busca de imagens no Google.

Mais rápido do que o processamento do Google, o autor passa a discorrer sobre como se deu as formações das metrópoles modernas e como esses sistemas inter-relacionados estão presentes na contemporaneidade, inclusive as interfaces da internet.

Conclui-se que o livro é um ponto de partida para discussões que se mostram extremamente necessárias, tanto no meio profissional como no meio acadêmico. Essa ruptura com algumas convenções do passado são importantes porque o mundo mudou. E esse mundo não é mais moderno. Ele é contemporâneo, fluido e complexo.


 

REFERÊNCIAS:

 

CARDOSO, Rafael. Design para um Mundo complexo. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

Giuseppe Lira